2.10.15

Rubus idaeus



As folhas de Outono davam ao patamar, por baixo do alpendre, um toque quase reconfortante. Porém,  este cenário de calma aparente rangia abandono, desolação.
Subiu lentamente os últimos degraus, pisou o tapete de folhas e abriu a porta devagar ... Não tinha medo. Medo de uma casa vazia?  Um cheiro adocicado, forte, entrou-lhe pelas narinas sem avisar. Por um segundo sentiu-se zonza, mas depressa recuperou  o equilíbrio. Caminhou em direcção à escada de acesso ao primeiro piso e, subitamente, a porta fechou-se com estrondo atrás de si. Mãos nervosas apertaram-lhe a traqueia: pânico!!! Tentou libertar-se: em vão!!!  “Ar... !!!”
- Joana!!!
- Sim mãe?
- São horas.
- Que cheiro é este?
- Tarte de framboesa. A tua preferida!
- Obrigado, mãe. Já desço.
 Tenho de apanhar as folhas do alpendre – pensou, enquanto se calçava. É o primeiro dia de escola. Não posso chegar atrasada.

19.2.15

Tardou

 

Tardou...
Espelhou a forma como um rabisco, um esboço; e rapidamente percebeu que o traço era o seu, a sombra era a sua, por isso: tardou... E não mandou avisar. Não enviou um sms, nem um email; não ligou a ninguém para dizer que não ia estar presente para o jantar. Tardou.

2.2.14

A Praça

... já tinha perdido toda a esperança de a encontrar - ao virar da esquina, num café, num banco de jardim, na fila da caixa do supermercado ou na paragem do autocarro. E ontem, cortando o calor abrasador, do alto dos 40ºC à sombra, vi-a surgir no fundo da praça com um livro na mão e um ramo de margaridas. A princípio, poderia jurar que estava a  delirar, a ter visões - seria do sol dilacerante de Agosto!? -, mas não. Era a mais pura das realidades a acontecer à minha frente, temperada pelo suor - meu e dos velhos que me ladeavam -; enquanto as moscas, teimosas, insistiam em fazer do meu rosto o seu amparo e bebedouro.
Não conseguia falar, exprimir uma palavra que fosse, à medida que a passos decisivos ela se aproximava deste grupo curvado pelo tempo, pelas chagas da memória... 
Passou. E com ela levou a oportunidade de lhe falar, de lhe dizer "olá de novo". Deixou um aroma a rebuçado de morango no ar e desapareceu na esquina. Perdi-lhe os saltos, os passos e os cabelos que ainda hoje acredito me terem acariciado a fronte, com o amor pueril que se tem por quem já adormece com 50 pregas na face e acorda com outras tantas somadas.
Mesmo sabendo que já não a verei mais, amanhã regresso. Volto a transpirar e a rodear-me dos mesmos velhos de hoje, na praça, na esperança do vento me trazer de novo o cheiro a rebuçado de morango e aqueles cabelos longos a roçar-me as rugas, como um "adeus" viciante. Volto, e desta vez trago-lhe um ramo de margaridas que faço questão de apanhar pela manhã, do outro lado da estrada da Igreja, junto ao terreno do Januário. Depois, quando ela passar estendo-lhe as flores e sorrio. Mas de boca fechada que o tempo levou-me quase tudo. Até a graça de um par de dentes alinhados. E dir-lhe-ei que nos separam muitas gerações e que não tem importância nenhuma. Porque nas próximas duas eu faço questão de hibernar. Daqui a 150 anos estaremos juntos outra vez e nesse dia, no dia em que a vir de novo, sou eu quem atravessa a praça... E vou parar, olhá-la nos olhos, sorrir-lhe. E colheremos margaridas juntos. Mesmo que a Igreja já não exista e no terreno do Januário tenham construído um enorme centro comercial. 

16.12.13

Bolo de Laranja


Adormeci, sim. Mas foi apenas cansaço. Não que a poeira dos sonhos me tivesse vencido, não... Apenas foi o cansaço, a demora, a espera. A espera do quê? De ti, de mim, de nós, do mundo inteiro sempre a girar para o mesmo lado; da barriga das minhas pernas que insiste em não parir, do mar que afinal não desagua em lado nenhum e dos bolos de laranja, que afinal sabem sempre ao mesmo: a bolo de laranja.
Foi o cansaço, sabes. Foi este interminável cansaço que me obriga a acordar quando não quero, a adormecer quando não posso e a cantar quando anseio silêncios. Os silêncios não cansam, sabias? Quando alguém está muito calado quer dizer que está a amar uma ideia, uma sombra, um sorriso ou um susto. Mas eu, eu nunca me assusto. Porquê? Por causa do cansaço. Este maldito e fétido cansaço que me leva nos seus braços para dentro de um gruta, escura e húmida, todas as noites e me conta tudo o que eu não quero saber; para beber chá - sempre frio - acompanhado com finas fatias de bolo de laranja... Que sabe sempre ao mesmo: a bolo de laranja.

9.12.13

Eczema

Enterrei-te no joelho direito e rezei por ti. Rezei a lenga-lenga que uma velhota em Corroios me ensinou. Segredou-me que servia para guiar os defuntos. Não sei se a disse convenientemente... Pelo menos tu não te queixaste - bem sei que no fundo do meu joelho direito pouco se ouve do que passa fora da carne e das articulações... (Também pus um disco a tocar enquanto lia - coisas da velhota; escolhi uma ária de Puccini - pareceu-me apropriado).
Hoje choveu bastante em Lisboa. Deste por isso? Pois, entendo. No fundo do meu joelho direito não se dá por nada. Deixa lá. Também foram só pequenas lágrimas... Nada de especial. E no fim o costume: um par de ruas alagadas e meia dúzia de monstros a boiar junto ao Cais das Colunas... Nada de mais.
Amanhã caminhas comigo até Algés? Disseram-me que há por lá um pedaço de céu sem dono. Ninguém o quer... Sendo assim, vou ver se o apanho. Depois podemos dar um passeio à Beira-Rio, ver os corpos a boiar, os pássaros a jogar ás cartas e o meu amigo Manuel a tirar corações das mãos e a decorá-los com açúcar amarelo e shots de whiskey... Prometo que te levo a jantar ao Tati e dançaremos juntos até o novo
dia despertar. Será como nos bons velhos tempos. Os tempos em que tu apenas sorrias por eu não ter joelhos... E eu acreditava em ti.

12.11.13

A Sustentabilidade da Tua Existência



... E de repente: Tu!

 como uma luz encarniçada, largando olhares de culpa por entre os meus dias futuros; como um caminho por caminhar, uma mão que se nega abrir; caindo a cada gesto numa doce recriminação que eu embalo
 como se nada mais importasse
 como se nada mais fosse possível
como um vinho acre que teimamos em beber, sós, cantando, deixando para trás todos os passos que não pisamos

 és o fardo que não carrego, e por isso te sinto tão pesada nos meus olhos, tão farta no meu canto

 não te reprimo, mas piso-te. Por não saber outro caminho, outra forma de sustentar a existência que, em mim, me é tão estranha.

20.6.12

Finos Traços... Fim do Mundo



Atiraram os Cantos para o Fim do Mundo; para onde não existem portas ou mãos fechadas. Atiraram-nos, mas não os viram cair. Por isso é possível que ainda voem, algures, para lá do teu umbigo, para lá das vicissitudes da inconstância que é a divina beleza do abismo, do fim. E não há fim sem silêncio. E ainda te oiço gemer. Ainda te sinto a caminhar nas minhas têmporas à procura de um Canto, apenas, que tenha sobrado da peleja. Não, meu anjo. Levaram tudo! - respondo-te, ainda que na ausência da inquirição; porque me detona os teus tremores secos, as tuas pernas abertas e os cabelos cortados à pressa. E tu caminhas ainda assim; porque não acreditas em palavras, ou em toda a simbiose fétida necessária à construção de um discurso lógico, perceptível, eloquente, regado pela verdade evidente, que mente, mente sempre. Os cantos ainda não caíram. Tê-lo-ia ouvido. Só estranho os pés descalços, a casa arrumada, as flores no vaso e este fino traço de sangue pelo chão.... Será um Canto, uma Manhã... ou o teu ‘pequeno’ Fim do Mundo?

28.5.12

Brandos... como trapos.

Numa manhã de gritos brandos,
acordou com o pesar de mil estranhos;
com o castigo de querer as tripas em vez da carne,
as luas aos anos
e as sombras que escaldam sem querer.

"... são duas as certezas do sangue:
     é frio e sabe a ferrugem!" - dizia.
... e nesta manhã de passos cândidos
os cabelos esvoaçavam mas não havia brisa,
não havia frio nem tempo - de 365 em 365 dias,
e o seu sorriso esbanjava juras afogadas...

"É o sangue, senhores. O Sangue!"

... e a brandura dos gritos não cessava...

Por isso caminhou em direcção ao mar sem receio.
Molhou as mãos,
depois a face.
Provou: "Sabe a sangue..."

Ao erguer o olhar arregalou as pupilas
como se de dEUS se tratasse: "Tantos!..."

Os corpos amontoavam-se como trapos.
Mulheres, crianças, homens e velhos...

Agora tudo fazia sentido:
Os gritos brandos,
a ferrugem no ar...

Nessa manhã a Lua insistiu em ficar
e abraçou-o sem receio.
Caminhou com ele água dentro...
E já em mar alto aconchegou-o junto ao corpo de uma mulher muito bonita,
num vestido de chita,
vermelho...

Adormeceu.

... e por toda a parte ecoou um murmúrio de bondade e espanto:
     "Mãe..."

11.4.12

As Andas

"Adeus"...

Começas sempre pela despedida
para que não custe tanto a partida;
o desgaste dos sorrisos amarelados
e as gotas de frivolidade,
bebidas num chá morno
a meio da tarde,
acompanhadas de ombros desossados e gestos salitre.

O mundo tem cada coisa,
cada caso mais desajustado,
cada alma mais perdida...
Vê lá tu que caminhei em pontas
com as minhas sandálias de pescador
e não me quiseram como profeta!
Nada.
Nem um olhar de condescendência...

Se calhar estás mesmo certa nas tuas desesperanças;
não vale a pena o chá
e muito menos os sorrisos...
Para quê?!

Comprei umas andas para parecer mais alto
e já vendi as sandálias;
os pés escorriam sangue
e a corrida era demasiado longa
para a minha dança de passos curtos
              - vendo bem, eu nem sequer sei dançar...
E depois esta coisa das profecias está exponencialmente gasta,
fétida;
caminha-se aos tombos e esfoladelas
para no fim aplaudir o filme,
as escolhas
              - por via das dúvidas, devolva-me o dinheiro do bilhete sim!

Hoje atirei-me à parede com fome de a furar  de um só rasgo,
para depois contemplar,
já do outro lado,
o contorno do querer:
Puro
Ventre
Uno


... merda. Fundi-me nela!
Estou confuso e emparedado.
Já não consigo beber chá
e todos os ossos não passam de pequenos blocos cinzentos,
colados com a argamassa que também junta os olhos aos sonhos...

Ao longe dizes-me "adeus" - outra vez...
Nas andas,
lanças-me o sorriso amarelado dos Outonos...
Não faz mal.
Já não me sangram os pés!
Aliás
  - vendo bem,
nem sequer pés tenho.

5.4.12

A Flôr de Carne

Deixa que te amarre as palavras;
te aperte a voz para que detone o grito vazio de medos e alavancas
                        - o medo precisa sempre de uma alavanca;
e te sustente de noites ambíguas e tenras,
gestos vadios e compêndios de peitos escancarados,
dias esmagados pelo alimento calma que pernoita nas tuas coxas
e te faz o pequeno-almoço.

Deixa que te chame "minha",
mesmo que depois partas para longe cansada de ser corpo,
de ser gente - indecorosa e bela,
num ribombar de fruta cristalina;
de suores à flôr da carne e esperas por amanhãs que nunca chegam.

Já raspei todos os cantos e consignei as larvas ao regresso a casa,
de onde nunca deveriam ter partido;
desesperei tanto por tinta verde seca,
para poder pintar de pele o perfume dos teus ombros,
enquanto a minha escamava
            - sou réptil, sei-o bem.... sempre fui.

Agora já não há domingos, sabes...
Deitaram tudo para o lixo e as crianças cresceram todas num dia e meio;
as tuas coxas encarquilharam e eu comprei 500 gramas de medos para embrulhar no Natal
            - há sempre quem precise.

Deixa lá...
As palavras hão-de soltar-se.
A voz é apenas um capricho da anatomia
e ser gente até nem assim tão importante;
ser gente é apenas uma consequência "lógica",
uma inevitabilidade do acaso,
não vês?

Os Domingos vão voltar...
E hei-de chamar-te "minha" outra vez,
fazer-te o pequeno almoço
e dormir nas tuas coxas,
e chamar-te Mãe;
mesmo que depois tornes a partir cansada de tanto ser...