9.2.12

Caiem Anjos

Caíram anjos nos pratos da morte e a sombra dos dias não deixa que vejas o sul, o norte, o espelho e a faca, nem mesmo os finos fios de cabelo aprisionados nas páginas das utopias; caíram anjos nos pratos da morte e as águas reflectem o estupro e a triste sorte dos muros erguidos nos arredores do teu peito, dos ais e dos sorrisos esquecidos por tanto amares a queda - os corpos; caíram anjos nos pratos da morte e o que dizes sai-te pelo sexo na crença de que conforte o corpo - o teu e o dos outros, que a vida já te sai cara e os castigos estão para lá da foz de um rio no Uzbequistão; caíram anjos nos pratos da morte e tu não deste por nada. Nem mesmo por ti a caminhar de sapatos trocados, luvas nos pés e fogão ás costas.

7.2.12

Amanheceu

Já amanheceu - perguntas-me com a voz da noite abraçada de cigarros e gestos curtos.
Deixaste cair os teus braços nos meus e nem o ruminar da auto-estrada, ao longe, perturba a paz da tua boca, calada num silêncio de açúcares, nicotina, vermelho e língua.
Há pele no chão, mas vestimos o sangue dos aprisionados, dos remorsos, e caminhámos... Soltos.
As portas ainda fechadas - escotilhas de maçaneta -, acalmam o acordar dos prédios - bocejo surdo.
Já amanheceu - repetes. Agora num sussurro.. Crês que adormeci no teu ventre, tão branco, e já não existo.                                                     
                                                                 (Nunca existi)

Cheira a pele... E os copos vazios fitam-nos como duas velhas de preto em reprovação.
- Sim. Já amanheceu.
Morri por dois minutos... Já foi suficiente.

6.2.12

Dois anos



Acho que dormi dois anos e não dei por isso.
Agora as rugas acordam todas as noites e conversam comigo sobre o tempo, o espaço e as poças, desde os 730 dias de regime sonolento.
Juro que há sombras no meu quarto que não conheço e que me assustam por também respirarem.
Foram dois anos a dormir, tenho a certeza.
As cartas amontoam-se debaixo da porta e até as formigas partiram!
Antes de me deitar guardo os olhos numa bola de cristal. Gosto de me pôr a adivinhar o futuro.
Parece que foi a semana passada, mas não. Passaram mesmo dois anos... E esta areia que sinto nas costas só podem ser restos de sonhos ou coisa parecida. Não me recordo de ter adormecido na praia...
Desde que acordei durmo mal. Foge-me o sono e a almofada tem trejeitos de corsário - é estranho este barco feito cama, não sai do mesmo sítio!
Cairam-me os dentes todos, mas ainda gosto de sorrir! Imagino-me com uma placa de gesso no lugar das coroas e dos caninos. Um sorriso claro, brilhante, é fundamental!

Acho que dormi demais... Já não passam por aqui autocarros e as ruas parecem-me mais vazias que nunca. Devia ter guardado as rugas num frasco, conservadas em alcoól, por exemplo; e ir abrindo as cartas devagar, uma a uma, dia após dia... Talvez assim as formigas tivessem ficado.

23.1.12

Entre o sol, o lavatório e livros velhos...

Aninho-me por baixo das pedras para poder respirar;


as manhãs ruminantes queimam e todas me cheiram a ti,

aos teus tiques,

trejeitos

e anseios;



Certos momentos até podia jurar que era tua a silhueta,

de coração nos dedos,

a cortar manhãs em fatias longas

e a barrá-las com “bom gosto fresco”, “classe do dia”,

ali,

à minha frente,

entre o sol, o lavatório e livros velhos;



sendo assim,

puxo as pedras do peito ao pescoço e tento voltar a adormecer,

para que o vulto se afaste no susto da sonolência

e leve com ele o deslumbre citrino de outra manhã a queimar…



Céus,

como isto cansa.



5.1.12

Café Frio



















Caminhar nos cacos, descalço…

Não importa se sangra.

Não importa se os sorrisos são temporários,
temperados como o tempo,
as esperas
e as ilusões;

não importa as palavras,
os dias
e o café fresco…

                 - Já te chamei duas vezes, e tu p’ra aí a escrever baboseiras sem gosto!

… mas eu gosto.



Estranho: o café frio é adocicado, sabias?


… não importam se me secam as tripas,
eu até nem tripas tenho;

e esta coisa da beleza intrínseca é uma valente merda!


Caminhar em cacos,
descalça,
obriga-te a sair das paredes,
a dizer parvoíces
e a juntar dois mais cinco
                  - que, como se sabe, é impossível;
a atirar para longe o futuro
e a dar um valente pontapé nas virilhas de alguém,
apenas porque a felicidade é um conceito abstracto e não dói,
logo: não pode ser verdadeiro…


Olha que porra,
deixei queimar o café…

e esfarelar cigarros em água quente
não é a mesma coisa!...
                  
                    - Perguntaram-me por ti.
                      Queriam saber se ainda estranhas o sol da manhã?

… quem se importa se sangra…

talvez seja dos cacos
ou então do aperto destas meias novas;


pelo sim pelo não
vou voltar para a parede...

Ainda lá tenho uma cafeteira cheia de café frio.

22.9.11

"when all of your wishes are granted, many of your dreams will be destroyed.."



ants are in the sugar

muscles atrophy
we're on the other side, the screen is us and we're t.v.
spread me open,
sticking to my pointy ribs
are all your infants in abortion cribs
I was born into this
everything turns to shit
the boy that you loved is the man that you fear
pray until your number,
asleep from all your pain,
your apple has been rotting
tomorrow's turned up dead
i have it all and i have no choice but to
i'll make everyone pay and you will see
you can kill yourself now
because you're dead in my mind
the boy that you loved is the monster you fear
peel off all those eyes, crawl into the dark,
you poisoned all your children to camouflage your scars
pray unto the splinters, pray unto your fear
pray your life was just a dream
the cut that never heals
pray now baby, pray your life was just a dream
(I am so tangled in my sins that I cannot escape)
pinch the head off, collapse me like a weed
someone had to go this far
I was born into this
everything turns to shit
the boy that you loved is the man that you fear
peel off all those eyes and crawl into the dark,
you poisoned all your children to camouflage your scars
pray unto the splinters, pray unto your fear
pray your life was just a dream
the cut that never heals
pray now baby, pray your life was just a dream
the world in my hands, there's no one left to hear you scream
there's no one left for you

"when all of your wishes are granted, many of your dreams will be destroyed.."








19.9.11

Purga...

Espanta-me que insistas em capitular...

É estranho sentir-se o medo escorrer para dentro do pote do esquecimento,
inundá-lo numa enxurrada de gestos e palavras aguçadas;
gelar como um razo e esquívo réptil das frestas da cal
e perder os pontos cardeais;
navegar pelo despojo da maré, do vento, do sal...

Espanta-me...

18.6.11

Tonto de Barriga Grande




Importas-te que te cante?

Que te chame aos sete ventos e que eles me mandem dormir,
porque já não virás acordar-me na madrugada de feitiços?

Bem sei que estas coisas amedrontam,
mas que queres, sou um tonto de barriga grande
e sonhos à flor da pele!
Deixei que o tempo passasse por mim
sem que os relógios parassem,
nem que fosse por dois minutos,
para me despertarem a tua existência…

E agora que sei que caminhas,
que devoras passos como quem fuma tristezas,
já não me importa o que possas pensar;
se até palmilhei montes e saberes
apenas para me poder deitar na tua sombra
e ver-te dormir nessas águas sem salitre…

Sabes,
já tive mil vidas!
Combati dragões e feiticeiros,
bruxas e alquimistas,
mas o que me prende ainda à existência
não é mais do que as sobras que me deixa
e que respiro de um só trago,
no pavor da derrota antecipada…

Os sonhos são o vício do louco!
Talvez o seja também,
quem saberá…
Mas neste mundo de saudades e mistérios seculares,
em que o homem se come vivo,
nas almas ataviadas pelo chão,
foste uma espécie de caminho sardento
de risos e correrias desenfreadas…

Que fazer?
São as sobras da vida!
Que na maior parte das vezes nem nos pertencem,
e até parece que se escondem nos bolsos de um urso gigante,
que arreganha os dentes sempre que tentamos delirar…

Não ligues….
Sou apenas um tonto de barriga grande,
à espera que me vejas e me acenes,
dizendo: “Matas este dragão para mim? Sabes, não me deixa dormir…”

9.6.11

Pequenos Tragos





Serão as palavras vãs, ocas?

Será o calor das mãos um sonho que inebria os sentidos
ao ponto de desejarmos não acordar?

Será mais fácil abrir os olhos e ânsiar o breve,
querer ser outro,
noutro tempo,
noutro espaço;
ser tamanho,
ser divino?

Será o aroma que insiste em percorrer os dedos
a vontade de ser vida,
o abraço da perpétua ausência?

E o que sopra lá fora,
não é já o tempo desgarrado entre o respeito e a cobiça,
entre o desejo e a ilusão?

Estranho plano este de respirar fugindo,
de morrer cantando,
de ser a esperança do cansaço
e a ilusão da corrida…

E sobra a pele por arrimar a outra pele que já é vento,

… sobra tanto,
por dentro.

30.4.11

Ás Arrecuas...

Entrelaçam-nos os dedos
E depois dizem que é proibido sonhar


Que o mundo acaba depois de amanhã
E que os desejos partiram
Com ânsias de ficar nas arrecuas dos sentidos
- já dormentes…

Não sei quem mais quer:
Se quem julga
Se quem conquista…
Ambos estoiram no mofo do porvir,
Na secura dos braços estendidos
Que insistimos em arranhar,
Para lembrar que o presente existe
Mesmo quando é parco em laços
Em sangue
E em mel…

Quando o espasmo remove o entulho
Regressamos ao berço
Ao leito,
Para sorrir como quem perde
Para ganhar como quem ama…

Entrelaçam-nos os dedos
E dizem-nos que nada é permanente,
Mesmo que sonhos insistam em perpetuá-lo,
Nas vagas brandas de quem sente
Nas bocas acres de quem sobra,
Na perda seca e puritana
- a rasgar peitos e canções…

… e as noites,
são mãos que não se fecham,
são laços
tiros de medo arrimados aos desejos
- cansados,
que de abandonados já há muito desancoraram…