«Sou demasiado permissivo.
Deixo que me destapem sem perguntar o porquê de semelhante acto… Está frio, mas eu não questiono.
Dou-me demais. Talvez porque dar seja o meu maior vício. Dar é como ar, oxigénio, sangue.
A entrega assusta-me, mas o susto incapacita-me a negação. Por isso, deixo-me embebedar pelos sentidos, esqueço a razão e parto à descoberta.
Redescubro-me nos outros e estremeço a cada passo, mas sou incapaz de recuar.
Invisto sozinho. Luto contra adversidades titânicas. A cada golpe arregaço as mangas, para que possa sangrar mais e mais… Como uma purificação masoquista, redentora, de uma fome que não entendo.
De poros abertos, de peito escancarado, recebo demais… Permito demais.
O divino embriaga-me.
Estonteia-me a simplicidade levianamente bela com que a natureza te criou. Como um lago verdejante, recheado de sensações puras e avassaladoras... E eu mergulho cada vez mais fundo, sem medo da apeneia impreparada, louca, primitiva…
Adormeço de cansaço. E lá no fundo, na paz de um acordar ainda ébrio, no silêncio do teu regaço, a paz… Apenas e só a paz me é oferecida como verdadeiramente minha.»
14.10.09
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1 comentários:
um comentário verdadeiramente extenso mas de quem tenho admiração para quem estimo.
(A leitura deste fica a teu criterio):
""Sou, em grande parte, a mesma prosa que escrevo. [...] Tornei-me uma
figura de livro, uma vida lida. O que sinto é (sem que eu queira)
sentido para se escrever que se. sentiu. O que penso está logo em
palavras, misturado com imagens que o desfazem, aberto em ritmos que
são outra coisa qualquer. De tanto recompor-me destruí-me.
...
Sou um poço de gestos que nem em mim se esboçaram todos, de palavras que
nem pensei pondo curvas nos meus lábios, de sonhos que me esqueci de
sonhar até ao fim.
Sou ruínas de edifícios que nunca foram mais do que essas ruínas, que
alguém se fartou, em meio de construí-las, de pensar em que3 construía.
...
Sou daquelas almas que as mulheres dizem que amam, e nunca reconhecem
quando encontram; daquelas que, se elas as reconhecessem, mesmo assim
não as reconheceriam. Sofro a delicadeza dos meus sentimentos com
uma atenção desdenhosa. Tenho todas as qualidades, pelas quais são
admirados os poetas românticos, mesmo aquela falta dessas qualidades,
pela qual se é realmente poeta romântico. Encontro-me descrito (em
parte) em vários romances como protagonista de vários enredos; mas o
essencial da minha vida, como da minha alma, é não ser nunca
protagonista."
...
Eu não me queixo pelo mundo. Não protesto em nome do universo. Não sou
pessimista. Sofro e queixo-me, mas não sei se o que há de mal é o
sofrimento nem sei se é humano sofrer. Que me importa saber se isso é
certo ou não?
...
Eu sofro, não sei se merecidamente. (Corça perseguida.)
...
Eu não sou pessimista, sou triste.
...
Sou, em grande parte, a mesma prosa que escrevo. Desenrolo-me em
períodos e parágrafos, faço-me pontuaçóes, e, na distribuição
desencadeada das imagens, visto-me, como as crianças, de rei com papel
de jornal, ou, no modo como faço ritmo de uma série de palavras, me
touco, como os loucos, de flores secas que continuam vivas nos meus
sonhos. E, acima de tudo, estou tranquilo, como um boneco de serradura
que, tomando consciência de si mesmo, abanasse de vez em quando a cabeça
para que o guizo no alto do boné em bico (parte integrante da mesma
cabeça) fizesse soar qualquer coisa, vida tinida do morto, aviso mínimo
ao Destino.
...
Sou o
intervalo entre o que sou e o que não sou, entre o que sonho e o que a
vida fez de mim, a média abstracta e carnal entre coisas que não são
nada, sendo eu nada também.
...
Não posso ser nada nem tudo: sou a
ponte de passagem entre o que não tenho e o que não quero.
...
Para alguns que me falam e me ouvem, sou um insensível. Sou, porém, mais
sensível - creio - que a vasta maioria dos homens. O que sou, contudo, é
um sensível que se conhece, e que, portanto, conhece a sensibilidade.
...
Sou como o homem que
vendeu a sombra, ou, antes, como a sombra do homem que a vendeu."
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