11.11.09

Detrito

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Não posso voltar abrir o meu peito...

É necessário que o feche,
que o encerre para sempre num poço profundo,
que o tape com muita terra,
ervas e arbustos,
para que ninguém o encontre,
para que se confunda com a solidão,
as plantas,
a humidade e o gelo das manhãs frias...

Não posso voltar a deixar
que ele pronuncie uma palavra que seja,
que te abra a porta dos meus sonhos
e te deixe entrar como uma brisa,
que permita o teu sopro dentro de mim,
ou que te embale com as minhas canções de palhaço pobre...

Não posso oferecer-te de novo,
sem receios,
o que de mais puro há em mim...
para que tu o consumas alarvemente,
e despejes o que sobra,
como sobra,
num canto qualquer desta cidade imunda...
Mero detrito sem importância...


Não posso querer-te como quero,
tão despreocupadamente,
tão louca, estupida, infantil e 'deliciosamente',
ao ponto de sombrear a tua indiferença
com cores berrantes e caras,
para que me iluda mais um dia,
mais um pouco...

Não posso dar-te o meu sangue...
Ferve demasiado pelo teu toque,
lascivo, demente...
E não posso dar-te mais de mim,
porque me perco uma e outra vez,
a cada dádiva,
a cada passo,
a cada abraço,

Não posso.
Não posso,

... não posso!
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