18.6.11

Tonto de Barriga Grande




Importas-te que te cante?

Que te chame aos sete ventos e que eles me mandem dormir,
porque já não virás acordar-me na madrugada de feitiços?

Bem sei que estas coisas amedrontam,
mas que queres, sou um tonto de barriga grande
e sonhos à flor da pele!
Deixei que o tempo passasse por mim
sem que os relógios parassem,
nem que fosse por dois minutos,
para me despertarem a tua existência…

E agora que sei que caminhas,
que devoras passos como quem fuma tristezas,
já não me importa o que possas pensar;
se até palmilhei montes e saberes
apenas para me poder deitar na tua sombra
e ver-te dormir nessas águas sem salitre…

Sabes,
já tive mil vidas!
Combati dragões e feiticeiros,
bruxas e alquimistas,
mas o que me prende ainda à existência
não é mais do que as sobras que me deixa
e que respiro de um só trago,
no pavor da derrota antecipada…

Os sonhos são o vício do louco!
Talvez o seja também,
quem saberá…
Mas neste mundo de saudades e mistérios seculares,
em que o homem se come vivo,
nas almas ataviadas pelo chão,
foste uma espécie de caminho sardento
de risos e correrias desenfreadas…

Que fazer?
São as sobras da vida!
Que na maior parte das vezes nem nos pertencem,
e até parece que se escondem nos bolsos de um urso gigante,
que arreganha os dentes sempre que tentamos delirar…

Não ligues….
Sou apenas um tonto de barriga grande,
à espera que me vejas e me acenes,
dizendo: “Matas este dragão para mim? Sabes, não me deixa dormir…”

9.6.11

Pequenos Tragos





Serão as palavras vãs, ocas?

Será o calor das mãos um sonho que inebria os sentidos
ao ponto de desejarmos não acordar?

Será mais fácil abrir os olhos e ânsiar o breve,
querer ser outro,
noutro tempo,
noutro espaço;
ser tamanho,
ser divino?

Será o aroma que insiste em percorrer os dedos
a vontade de ser vida,
o abraço da perpétua ausência?

E o que sopra lá fora,
não é já o tempo desgarrado entre o respeito e a cobiça,
entre o desejo e a ilusão?

Estranho plano este de respirar fugindo,
de morrer cantando,
de ser a esperança do cansaço
e a ilusão da corrida…

E sobra a pele por arrimar a outra pele que já é vento,

… sobra tanto,
por dentro.