15.2.11

Intermitências

Recordo-me do seu cheiro, do seu sorriso...
Passada uma década sobre a morte do meu avô, o banco de memória ainda o identifica em pequenas coisas do quotidiano: Nas caras e rugas de outros septuagenários largados nos bancos de jardim, ao sabor das conversas de passos pequenos, de vidas cheias.
O meu avô era um português à moda antiga. Daqueles, como já há poucos. Com tendência para se confundir com a memória fotográfica de um qualquer postal ou recuerdo, nos mostruários à beira das praias. Memórias de um Portugal que ficou lá atrás... Muito atrás.
O tempo em que as crianças usavam galochas para conquistar as poças – rainhas da chuva –; em que se jogava ao berlinde, ás escondidas ou à sirumba. Era o tempo em que as férias de Verão duravam três meses inteiros, mas a tabuada não era esquecida.
Depois da morte do meu avô, para mim, Portugal começou a mergulhar numa tristeza exasperante – ou terei sido só eu?
O facto é que a vontade de se ser português se esfuma a cada ano que finda, numa permanente depressão colectiva…
Já não há netos a quem sorrir e os velhos do jardim estão sós e morrem sós, sem que ninguém os procure… Nem mesmo quando chega o fim.
O meu saudoso velhote tinha um sorriso contagiante. Era impossível não rirmos com ele. Nunca o vi cabisbaixo, nem ouvi amaldiçoar a sua “triste” sorte de ter nascido em Portugal. Sorria apenas, pouco mais lhe restava...
Esse sorriso é o que guardo num canto do peito. Na esperança que os netos de hoje sejam amanhã, outra vez, avós. Porque Portugal precisa, mais do que nunca, de quem lhe esboce um sorriso, o sente no colo e o ensine a ser homem.