20.6.12

Finos Traços... Fim do Mundo



Atiraram os Cantos para o Fim do Mundo; para onde não existem portas ou mãos fechadas. Atiraram-nos, mas não os viram cair. Por isso é possível que ainda voem, algures, para lá do teu umbigo, para lá das vicissitudes da inconstância que é a divina beleza do abismo, do fim. E não há fim sem silêncio. E ainda te oiço gemer. Ainda te sinto a caminhar nas minhas têmporas à procura de um Canto, apenas, que tenha sobrado da peleja. Não, meu anjo. Levaram tudo! - respondo-te, ainda que na ausência da inquirição; porque me detona os teus tremores secos, as tuas pernas abertas e os cabelos cortados à pressa. E tu caminhas ainda assim; porque não acreditas em palavras, ou em toda a simbiose fétida necessária à construção de um discurso lógico, perceptível, eloquente, regado pela verdade evidente, que mente, mente sempre. Os cantos ainda não caíram. Tê-lo-ia ouvido. Só estranho os pés descalços, a casa arrumada, as flores no vaso e este fino traço de sangue pelo chão.... Será um Canto, uma Manhã... ou o teu ‘pequeno’ Fim do Mundo?

28.5.12

Brandos... como trapos.

Numa manhã de gritos brandos,
acordou com o pesar de mil estranhos;
com o castigo de querer as tripas em vez da carne,
as luas aos anos
e as sombras que escaldam sem querer.

"... são duas as certezas do sangue:
     é frio e sabe a ferrugem!" - dizia.
... e nesta manhã de passos cândidos
os cabelos esvoaçavam mas não havia brisa,
não havia frio nem tempo - de 365 em 365 dias,
e o seu sorriso esbanjava juras afogadas...

"É o sangue, senhores. O Sangue!"

... e a brandura dos gritos não cessava...

Por isso caminhou em direcção ao mar sem receio.
Molhou as mãos,
depois a face.
Provou: "Sabe a sangue..."

Ao erguer o olhar arregalou as pupilas
como se de dEUS se tratasse: "Tantos!..."

Os corpos amontoavam-se como trapos.
Mulheres, crianças, homens e velhos...

Agora tudo fazia sentido:
Os gritos brandos,
a ferrugem no ar...

Nessa manhã a Lua insistiu em ficar
e abraçou-o sem receio.
Caminhou com ele água dentro...
E já em mar alto aconchegou-o junto ao corpo de uma mulher muito bonita,
num vestido de chita,
vermelho...

Adormeceu.

... e por toda a parte ecoou um murmúrio de bondade e espanto:
     "Mãe..."

11.4.12

As Andas

"Adeus"...

Começas sempre pela despedida
para que não custe tanto a partida;
o desgaste dos sorrisos amarelados
e as gotas de frivolidade,
bebidas num chá morno
a meio da tarde,
acompanhadas de ombros desossados e gestos salitre.

O mundo tem cada coisa,
cada caso mais desajustado,
cada alma mais perdida...
Vê lá tu que caminhei em pontas
com as minhas sandálias de pescador
e não me quiseram como profeta!
Nada.
Nem um olhar de condescendência...

Se calhar estás mesmo certa nas tuas desesperanças;
não vale a pena o chá
e muito menos os sorrisos...
Para quê?!

Comprei umas andas para parecer mais alto
e já vendi as sandálias;
os pés escorriam sangue
e a corrida era demasiado longa
para a minha dança de passos curtos
              - vendo bem, eu nem sequer sei dançar...
E depois esta coisa das profecias está exponencialmente gasta,
fétida;
caminha-se aos tombos e esfoladelas
para no fim aplaudir o filme,
as escolhas
              - por via das dúvidas, devolva-me o dinheiro do bilhete sim!

Hoje atirei-me à parede com fome de a furar  de um só rasgo,
para depois contemplar,
já do outro lado,
o contorno do querer:
Puro
Ventre
Uno


... merda. Fundi-me nela!
Estou confuso e emparedado.
Já não consigo beber chá
e todos os ossos não passam de pequenos blocos cinzentos,
colados com a argamassa que também junta os olhos aos sonhos...

Ao longe dizes-me "adeus" - outra vez...
Nas andas,
lanças-me o sorriso amarelado dos Outonos...
Não faz mal.
Já não me sangram os pés!
Aliás
  - vendo bem,
nem sequer pés tenho.

5.4.12

A Flôr de Carne

Deixa que te amarre as palavras;
te aperte a voz para que detone o grito vazio de medos e alavancas
                        - o medo precisa sempre de uma alavanca;
e te sustente de noites ambíguas e tenras,
gestos vadios e compêndios de peitos escancarados,
dias esmagados pelo alimento calma que pernoita nas tuas coxas
e te faz o pequeno-almoço.

Deixa que te chame "minha",
mesmo que depois partas para longe cansada de ser corpo,
de ser gente - indecorosa e bela,
num ribombar de fruta cristalina;
de suores à flôr da carne e esperas por amanhãs que nunca chegam.

Já raspei todos os cantos e consignei as larvas ao regresso a casa,
de onde nunca deveriam ter partido;
desesperei tanto por tinta verde seca,
para poder pintar de pele o perfume dos teus ombros,
enquanto a minha escamava
            - sou réptil, sei-o bem.... sempre fui.

Agora já não há domingos, sabes...
Deitaram tudo para o lixo e as crianças cresceram todas num dia e meio;
as tuas coxas encarquilharam e eu comprei 500 gramas de medos para embrulhar no Natal
            - há sempre quem precise.

Deixa lá...
As palavras hão-de soltar-se.
A voz é apenas um capricho da anatomia
e ser gente até nem assim tão importante;
ser gente é apenas uma consequência "lógica",
uma inevitabilidade do acaso,
não vês?

Os Domingos vão voltar...
E hei-de chamar-te "minha" outra vez,
fazer-te o pequeno almoço
e dormir nas tuas coxas,
e chamar-te Mãe;
mesmo que depois tornes a partir cansada de tanto ser...


27.3.12

Acreditas que o mundo está do avesso?
(Tu nem imaginas como isto anda).
Se, por um acaso divino, regressasses não ias gostar, asseguro-te.
Isto está de loucos Zé. O amor é um vagabundo sem casa e as que restam caiem aos pedaços. É raro encontrar uma que não apresente fendas profundas logo à nascença. As palavras são pequenos aviões de papel e as mãos andam sempre fechadas.
Isto é de loucos Zé. E pouco nos resta além de sorrisos a espaços, amigos a espaços e um copo de vinho de vez em quando... Porque o pão já não adormece.
Quem te ama verdadeiramente percebe que foi melhor teres partido. Fadar-te a isto seria demasiado cruel, medíocre, assassino. Tu sabes lá como isto anda...
Há sorrisos aí em cima? Há quem, verdadeiramente, nos queira bem? Quem não se aproveite do nosso peito em benefício próprio?... É que nada pode ser pior que isto aqui em baixo, Zé. Nada!
Lembras-te quando me ias buscar à escola?... E eu a pensar que o mundo e as pessoas seriam boas... Como tu, Zé. Como tu.
Saiu-me tudo ao contrário. Tudo!
E agora, a quem apresento a reclamação? A quem me queixo por não ter sido teu companheiro de armas em vez de neto?
Isto está tudo do avesso, Zé. E já não há quem se entregue à verdade. Andamos todos a  servir de cobaias para alguém (ás vezes até de nós próprios); a ser números e subidas (ou descidas) demográficas, nada mais.
Que venha alguém tomar conta de nós, Zé. Sozinhos a coisa não anda, está mais que visto. Ou então que se comece tudo de novo. Sem receios, sem preconceitos, sem feridas ou males d'alma.
Talvez desta feita possa ser eu quem te espera no portão da escola e tu a crescer, acreditando que o mundo será melhor e as pessoas também... Como tu soubeste ser.
Fala por aí com quem manda e diz-lhes que a experiência falhou, que isto assim não resulta. Sublinha bem que, se não houver urgentemente uma intervenção séria, nos mataremos todos uns aos outros!

Entretanto, se não tiveres nada para fazer hoje, passa lá por casa à hora de jantar. Já estou farto de falar com as paredes. Sempre púnhamos a conversa em dia, dava-mos uma volta... Estendia-te a mão e fazíamos de conta que regressávamos a casa, depois de mais um dia de lições e correrias. Eu um tonto e tu sorrindo, como dantes... Lembras-te, Zé?


26.3.12

Até Amanhã (hoje é dia de saudades)

















Hoje é dia de saudades.
Daquelas que ficaram em lume brando e cozeram demais;
que antes transbordaram
e sujaram tudo no salto da fervura.

O Sol já não é o mesmo,
reparaste?
O caminhar antigo não passa agora de uma miragem,
um adeus qualquer amassado e seco
           - aquele antever dos passos queimava,
                                                 só de escutar.

Hoje é dia de saudades
e aquilo que mais temo é esquecer-me de as sentir,
de embrulhar tudo em papel vegetal,
fechas as portas com fios de cabelo
e ficar à espera que tu repares;
que batas à janela e me digas "bom dia",
oferecendo-me café, pão com manteiga e abraços.

Hoje é dia de saudades
e o teu passo já não é o mesmo...

"Até amanhã".

9.2.12

Caiem Anjos

Caíram anjos nos pratos da morte e a sombra dos dias não deixa que vejas o sul, o norte, o espelho e a faca, nem mesmo os finos fios de cabelo aprisionados nas páginas das utopias; caíram anjos nos pratos da morte e as águas reflectem o estupro e a triste sorte dos muros erguidos nos arredores do teu peito, dos ais e dos sorrisos esquecidos por tanto amares a queda - os corpos; caíram anjos nos pratos da morte e o que dizes sai-te pelo sexo na crença de que conforte o corpo - o teu e o dos outros, que a vida já te sai cara e os castigos estão para lá da foz de um rio no Uzbequistão; caíram anjos nos pratos da morte e tu não deste por nada. Nem mesmo por ti a caminhar de sapatos trocados, luvas nos pés e fogão ás costas.

7.2.12

Amanheceu

Já amanheceu - perguntas-me com a voz da noite abraçada de cigarros e gestos curtos.
Deixaste cair os teus braços nos meus e nem o ruminar da auto-estrada, ao longe, perturba a paz da tua boca, calada num silêncio de açúcares, nicotina, vermelho e língua.
Há pele no chão, mas vestimos o sangue dos aprisionados, dos remorsos, e caminhámos... Soltos.
As portas ainda fechadas - escotilhas de maçaneta -, acalmam o acordar dos prédios - bocejo surdo.
Já amanheceu - repetes. Agora num sussurro.. Crês que adormeci no teu ventre, tão branco, e já não existo.                                                     
                                                                 (Nunca existi)

Cheira a pele... E os copos vazios fitam-nos como duas velhas de preto em reprovação.
- Sim. Já amanheceu.
Morri por dois minutos... Já foi suficiente.

6.2.12

Dois anos



Acho que dormi dois anos e não dei por isso.
Agora as rugas acordam todas as noites e conversam comigo sobre o tempo, o espaço e as poças, desde os 730 dias de regime sonolento.
Juro que há sombras no meu quarto que não conheço e que me assustam por também respirarem.
Foram dois anos a dormir, tenho a certeza.
As cartas amontoam-se debaixo da porta e até as formigas partiram!
Antes de me deitar guardo os olhos numa bola de cristal. Gosto de me pôr a adivinhar o futuro.
Parece que foi a semana passada, mas não. Passaram mesmo dois anos... E esta areia que sinto nas costas só podem ser restos de sonhos ou coisa parecida. Não me recordo de ter adormecido na praia...
Desde que acordei durmo mal. Foge-me o sono e a almofada tem trejeitos de corsário - é estranho este barco feito cama, não sai do mesmo sítio!
Cairam-me os dentes todos, mas ainda gosto de sorrir! Imagino-me com uma placa de gesso no lugar das coroas e dos caninos. Um sorriso claro, brilhante, é fundamental!

Acho que dormi demais... Já não passam por aqui autocarros e as ruas parecem-me mais vazias que nunca. Devia ter guardado as rugas num frasco, conservadas em alcoól, por exemplo; e ir abrindo as cartas devagar, uma a uma, dia após dia... Talvez assim as formigas tivessem ficado.

23.1.12

Entre o sol, o lavatório e livros velhos...

Aninho-me por baixo das pedras para poder respirar;


as manhãs ruminantes queimam e todas me cheiram a ti,

aos teus tiques,

trejeitos

e anseios;



Certos momentos até podia jurar que era tua a silhueta,

de coração nos dedos,

a cortar manhãs em fatias longas

e a barrá-las com “bom gosto fresco”, “classe do dia”,

ali,

à minha frente,

entre o sol, o lavatório e livros velhos;



sendo assim,

puxo as pedras do peito ao pescoço e tento voltar a adormecer,

para que o vulto se afaste no susto da sonolência

e leve com ele o deslumbre citrino de outra manhã a queimar…



Céus,

como isto cansa.



5.1.12

Café Frio



















Caminhar nos cacos, descalço…

Não importa se sangra.

Não importa se os sorrisos são temporários,
temperados como o tempo,
as esperas
e as ilusões;

não importa as palavras,
os dias
e o café fresco…

                 - Já te chamei duas vezes, e tu p’ra aí a escrever baboseiras sem gosto!

… mas eu gosto.



Estranho: o café frio é adocicado, sabias?


… não importam se me secam as tripas,
eu até nem tripas tenho;

e esta coisa da beleza intrínseca é uma valente merda!


Caminhar em cacos,
descalça,
obriga-te a sair das paredes,
a dizer parvoíces
e a juntar dois mais cinco
                  - que, como se sabe, é impossível;
a atirar para longe o futuro
e a dar um valente pontapé nas virilhas de alguém,
apenas porque a felicidade é um conceito abstracto e não dói,
logo: não pode ser verdadeiro…


Olha que porra,
deixei queimar o café…

e esfarelar cigarros em água quente
não é a mesma coisa!...
                  
                    - Perguntaram-me por ti.
                      Queriam saber se ainda estranhas o sol da manhã?

… quem se importa se sangra…

talvez seja dos cacos
ou então do aperto destas meias novas;


pelo sim pelo não
vou voltar para a parede...

Ainda lá tenho uma cafeteira cheia de café frio.