27.3.12

Acreditas que o mundo está do avesso?
(Tu nem imaginas como isto anda).
Se, por um acaso divino, regressasses não ias gostar, asseguro-te.
Isto está de loucos Zé. O amor é um vagabundo sem casa e as que restam caiem aos pedaços. É raro encontrar uma que não apresente fendas profundas logo à nascença. As palavras são pequenos aviões de papel e as mãos andam sempre fechadas.
Isto é de loucos Zé. E pouco nos resta além de sorrisos a espaços, amigos a espaços e um copo de vinho de vez em quando... Porque o pão já não adormece.
Quem te ama verdadeiramente percebe que foi melhor teres partido. Fadar-te a isto seria demasiado cruel, medíocre, assassino. Tu sabes lá como isto anda...
Há sorrisos aí em cima? Há quem, verdadeiramente, nos queira bem? Quem não se aproveite do nosso peito em benefício próprio?... É que nada pode ser pior que isto aqui em baixo, Zé. Nada!
Lembras-te quando me ias buscar à escola?... E eu a pensar que o mundo e as pessoas seriam boas... Como tu, Zé. Como tu.
Saiu-me tudo ao contrário. Tudo!
E agora, a quem apresento a reclamação? A quem me queixo por não ter sido teu companheiro de armas em vez de neto?
Isto está tudo do avesso, Zé. E já não há quem se entregue à verdade. Andamos todos a  servir de cobaias para alguém (ás vezes até de nós próprios); a ser números e subidas (ou descidas) demográficas, nada mais.
Que venha alguém tomar conta de nós, Zé. Sozinhos a coisa não anda, está mais que visto. Ou então que se comece tudo de novo. Sem receios, sem preconceitos, sem feridas ou males d'alma.
Talvez desta feita possa ser eu quem te espera no portão da escola e tu a crescer, acreditando que o mundo será melhor e as pessoas também... Como tu soubeste ser.
Fala por aí com quem manda e diz-lhes que a experiência falhou, que isto assim não resulta. Sublinha bem que, se não houver urgentemente uma intervenção séria, nos mataremos todos uns aos outros!

Entretanto, se não tiveres nada para fazer hoje, passa lá por casa à hora de jantar. Já estou farto de falar com as paredes. Sempre púnhamos a conversa em dia, dava-mos uma volta... Estendia-te a mão e fazíamos de conta que regressávamos a casa, depois de mais um dia de lições e correrias. Eu um tonto e tu sorrindo, como dantes... Lembras-te, Zé?


26.3.12

Até Amanhã (hoje é dia de saudades)

















Hoje é dia de saudades.
Daquelas que ficaram em lume brando e cozeram demais;
que antes transbordaram
e sujaram tudo no salto da fervura.

O Sol já não é o mesmo,
reparaste?
O caminhar antigo não passa agora de uma miragem,
um adeus qualquer amassado e seco
           - aquele antever dos passos queimava,
                                                 só de escutar.

Hoje é dia de saudades
e aquilo que mais temo é esquecer-me de as sentir,
de embrulhar tudo em papel vegetal,
fechas as portas com fios de cabelo
e ficar à espera que tu repares;
que batas à janela e me digas "bom dia",
oferecendo-me café, pão com manteiga e abraços.

Hoje é dia de saudades
e o teu passo já não é o mesmo...

"Até amanhã".