11.4.12

As Andas

"Adeus"...

Começas sempre pela despedida
para que não custe tanto a partida;
o desgaste dos sorrisos amarelados
e as gotas de frivolidade,
bebidas num chá morno
a meio da tarde,
acompanhadas de ombros desossados e gestos salitre.

O mundo tem cada coisa,
cada caso mais desajustado,
cada alma mais perdida...
Vê lá tu que caminhei em pontas
com as minhas sandálias de pescador
e não me quiseram como profeta!
Nada.
Nem um olhar de condescendência...

Se calhar estás mesmo certa nas tuas desesperanças;
não vale a pena o chá
e muito menos os sorrisos...
Para quê?!

Comprei umas andas para parecer mais alto
e já vendi as sandálias;
os pés escorriam sangue
e a corrida era demasiado longa
para a minha dança de passos curtos
              - vendo bem, eu nem sequer sei dançar...
E depois esta coisa das profecias está exponencialmente gasta,
fétida;
caminha-se aos tombos e esfoladelas
para no fim aplaudir o filme,
as escolhas
              - por via das dúvidas, devolva-me o dinheiro do bilhete sim!

Hoje atirei-me à parede com fome de a furar  de um só rasgo,
para depois contemplar,
já do outro lado,
o contorno do querer:
Puro
Ventre
Uno


... merda. Fundi-me nela!
Estou confuso e emparedado.
Já não consigo beber chá
e todos os ossos não passam de pequenos blocos cinzentos,
colados com a argamassa que também junta os olhos aos sonhos...

Ao longe dizes-me "adeus" - outra vez...
Nas andas,
lanças-me o sorriso amarelado dos Outonos...
Não faz mal.
Já não me sangram os pés!
Aliás
  - vendo bem,
nem sequer pés tenho.

5.4.12

A Flôr de Carne

Deixa que te amarre as palavras;
te aperte a voz para que detone o grito vazio de medos e alavancas
                        - o medo precisa sempre de uma alavanca;
e te sustente de noites ambíguas e tenras,
gestos vadios e compêndios de peitos escancarados,
dias esmagados pelo alimento calma que pernoita nas tuas coxas
e te faz o pequeno-almoço.

Deixa que te chame "minha",
mesmo que depois partas para longe cansada de ser corpo,
de ser gente - indecorosa e bela,
num ribombar de fruta cristalina;
de suores à flôr da carne e esperas por amanhãs que nunca chegam.

Já raspei todos os cantos e consignei as larvas ao regresso a casa,
de onde nunca deveriam ter partido;
desesperei tanto por tinta verde seca,
para poder pintar de pele o perfume dos teus ombros,
enquanto a minha escamava
            - sou réptil, sei-o bem.... sempre fui.

Agora já não há domingos, sabes...
Deitaram tudo para o lixo e as crianças cresceram todas num dia e meio;
as tuas coxas encarquilharam e eu comprei 500 gramas de medos para embrulhar no Natal
            - há sempre quem precise.

Deixa lá...
As palavras hão-de soltar-se.
A voz é apenas um capricho da anatomia
e ser gente até nem assim tão importante;
ser gente é apenas uma consequência "lógica",
uma inevitabilidade do acaso,
não vês?

Os Domingos vão voltar...
E hei-de chamar-te "minha" outra vez,
fazer-te o pequeno almoço
e dormir nas tuas coxas,
e chamar-te Mãe;
mesmo que depois tornes a partir cansada de tanto ser...