5.4.12

A Flôr de Carne

Deixa que te amarre as palavras;
te aperte a voz para que detone o grito vazio de medos e alavancas
                        - o medo precisa sempre de uma alavanca;
e te sustente de noites ambíguas e tenras,
gestos vadios e compêndios de peitos escancarados,
dias esmagados pelo alimento calma que pernoita nas tuas coxas
e te faz o pequeno-almoço.

Deixa que te chame "minha",
mesmo que depois partas para longe cansada de ser corpo,
de ser gente - indecorosa e bela,
num ribombar de fruta cristalina;
de suores à flôr da carne e esperas por amanhãs que nunca chegam.

Já raspei todos os cantos e consignei as larvas ao regresso a casa,
de onde nunca deveriam ter partido;
desesperei tanto por tinta verde seca,
para poder pintar de pele o perfume dos teus ombros,
enquanto a minha escamava
            - sou réptil, sei-o bem.... sempre fui.

Agora já não há domingos, sabes...
Deitaram tudo para o lixo e as crianças cresceram todas num dia e meio;
as tuas coxas encarquilharam e eu comprei 500 gramas de medos para embrulhar no Natal
            - há sempre quem precise.

Deixa lá...
As palavras hão-de soltar-se.
A voz é apenas um capricho da anatomia
e ser gente até nem assim tão importante;
ser gente é apenas uma consequência "lógica",
uma inevitabilidade do acaso,
não vês?

Os Domingos vão voltar...
E hei-de chamar-te "minha" outra vez,
fazer-te o pequeno almoço
e dormir nas tuas coxas,
e chamar-te Mãe;
mesmo que depois tornes a partir cansada de tanto ser...


Sem comentários: