6.2.12

Dois anos



Acho que dormi dois anos e não dei por isso.
Agora as rugas acordam todas as noites e conversam comigo sobre o tempo, o espaço e as poças, desde os 730 dias de regime sonolento.
Juro que há sombras no meu quarto que não conheço e que me assustam por também respirarem.
Foram dois anos a dormir, tenho a certeza.
As cartas amontoam-se debaixo da porta e até as formigas partiram!
Antes de me deitar guardo os olhos numa bola de cristal. Gosto de me pôr a adivinhar o futuro.
Parece que foi a semana passada, mas não. Passaram mesmo dois anos... E esta areia que sinto nas costas só podem ser restos de sonhos ou coisa parecida. Não me recordo de ter adormecido na praia...
Desde que acordei durmo mal. Foge-me o sono e a almofada tem trejeitos de corsário - é estranho este barco feito cama, não sai do mesmo sítio!
Cairam-me os dentes todos, mas ainda gosto de sorrir! Imagino-me com uma placa de gesso no lugar das coroas e dos caninos. Um sorriso claro, brilhante, é fundamental!

Acho que dormi demais... Já não passam por aqui autocarros e as ruas parecem-me mais vazias que nunca. Devia ter guardado as rugas num frasco, conservadas em alcoól, por exemplo; e ir abrindo as cartas devagar, uma a uma, dia após dia... Talvez assim as formigas tivessem ficado.