28.5.12

Brandos... como trapos.

Numa manhã de gritos brandos,
acordou com o pesar de mil estranhos;
com o castigo de querer as tripas em vez da carne,
as luas aos anos
e as sombras que escaldam sem querer.

"... são duas as certezas do sangue:
     é frio e sabe a ferrugem!" - dizia.
... e nesta manhã de passos cândidos
os cabelos esvoaçavam mas não havia brisa,
não havia frio nem tempo - de 365 em 365 dias,
e o seu sorriso esbanjava juras afogadas...

"É o sangue, senhores. O Sangue!"

... e a brandura dos gritos não cessava...

Por isso caminhou em direcção ao mar sem receio.
Molhou as mãos,
depois a face.
Provou: "Sabe a sangue..."

Ao erguer o olhar arregalou as pupilas
como se de dEUS se tratasse: "Tantos!..."

Os corpos amontoavam-se como trapos.
Mulheres, crianças, homens e velhos...

Agora tudo fazia sentido:
Os gritos brandos,
a ferrugem no ar...

Nessa manhã a Lua insistiu em ficar
e abraçou-o sem receio.
Caminhou com ele água dentro...
E já em mar alto aconchegou-o junto ao corpo de uma mulher muito bonita,
num vestido de chita,
vermelho...

Adormeceu.

... e por toda a parte ecoou um murmúrio de bondade e espanto:
     "Mãe..."