16.12.13

Bolo de Laranja


Adormeci, sim. Mas foi apenas cansaço. Não que a poeira dos sonhos me tivesse vencido, não... Apenas foi o cansaço, a demora, a espera. A espera do quê? De ti, de mim, de nós, do mundo inteiro sempre a girar para o mesmo lado; da barriga das minhas pernas que insiste em não parir, do mar que afinal não desagua em lado nenhum e dos bolos de laranja, que afinal sabem sempre ao mesmo: a bolo de laranja.
Foi o cansaço, sabes. Foi este interminável cansaço que me obriga a acordar quando não quero, a adormecer quando não posso e a cantar quando anseio silêncios. Os silêncios não cansam, sabias? Quando alguém está muito calado quer dizer que está a amar uma ideia, uma sombra, um sorriso ou um susto. Mas eu, eu nunca me assusto. Porquê? Por causa do cansaço. Este maldito e fétido cansaço que me leva nos seus braços para dentro de um gruta, escura e húmida, todas as noites e me conta tudo o que eu não quero saber; para beber chá - sempre frio - acompanhado com finas fatias de bolo de laranja... Que sabe sempre ao mesmo: a bolo de laranja.

9.12.13

Eczema

Enterrei-te no joelho direito e rezei por ti. Rezei a lenga-lenga que uma velhota em Corroios me ensinou. Segredou-me que servia para guiar os defuntos. Não sei se a disse convenientemente... Pelo menos tu não te queixaste - bem sei que no fundo do meu joelho direito pouco se ouve do que passa fora da carne e das articulações... (Também pus um disco a tocar enquanto lia - coisas da velhota; escolhi uma ária de Puccini - pareceu-me apropriado).
Hoje choveu bastante em Lisboa. Deste por isso? Pois, entendo. No fundo do meu joelho direito não se dá por nada. Deixa lá. Também foram só pequenas lágrimas... Nada de especial. E no fim o costume: um par de ruas alagadas e meia dúzia de monstros a boiar junto ao Cais das Colunas... Nada de mais.
Amanhã caminhas comigo até Algés? Disseram-me que há por lá um pedaço de céu sem dono. Ninguém o quer... Sendo assim, vou ver se o apanho. Depois podemos dar um passeio à Beira-Rio, ver os corpos a boiar, os pássaros a jogar ás cartas e o meu amigo Manuel a tirar corações das mãos e a decorá-los com açúcar amarelo e shots de whiskey... Prometo que te levo a jantar ao Tati e dançaremos juntos até o novo
dia despertar. Será como nos bons velhos tempos. Os tempos em que tu apenas sorrias por eu não ter joelhos... E eu acreditava em ti.

12.11.13

A Sustentabilidade da Tua Existência



... E de repente: Tu!

 como uma luz encarniçada, largando olhares de culpa por entre os meus dias futuros; como um caminho por caminhar, uma mão que se nega abrir; caindo a cada gesto numa doce recriminação que eu embalo
 como se nada mais importasse
 como se nada mais fosse possível
como um vinho acre que teimamos em beber, sós, cantando, deixando para trás todos os passos que não pisamos

 és o fardo que não carrego, e por isso te sinto tão pesada nos meus olhos, tão farta no meu canto

 não te reprimo, mas piso-te. Por não saber outro caminho, outra forma de sustentar a existência que, em mim, me é tão estranha.