9.12.13

Eczema

Enterrei-te no joelho direito e rezei por ti. Rezei a lenga-lenga que uma velhota em Corroios me ensinou. Segredou-me que servia para guiar os defuntos. Não sei se a disse convenientemente... Pelo menos tu não te queixaste - bem sei que no fundo do meu joelho direito pouco se ouve do que passa fora da carne e das articulações... (Também pus um disco a tocar enquanto lia - coisas da velhota; escolhi uma ária de Puccini - pareceu-me apropriado).
Hoje choveu bastante em Lisboa. Deste por isso? Pois, entendo. No fundo do meu joelho direito não se dá por nada. Deixa lá. Também foram só pequenas lágrimas... Nada de especial. E no fim o costume: um par de ruas alagadas e meia dúzia de monstros a boiar junto ao Cais das Colunas... Nada de mais.
Amanhã caminhas comigo até Algés? Disseram-me que há por lá um pedaço de céu sem dono. Ninguém o quer... Sendo assim, vou ver se o apanho. Depois podemos dar um passeio à Beira-Rio, ver os corpos a boiar, os pássaros a jogar ás cartas e o meu amigo Manuel a tirar corações das mãos e a decorá-los com açúcar amarelo e shots de whiskey... Prometo que te levo a jantar ao Tati e dançaremos juntos até o novo
dia despertar. Será como nos bons velhos tempos. Os tempos em que tu apenas sorrias por eu não ter joelhos... E eu acreditava em ti.