2.2.14

A Praça

... já tinha perdido toda a esperança de a encontrar - ao virar da esquina, num café, num banco de jardim, na fila da caixa do supermercado ou na paragem do autocarro. E ontem, cortando o calor abrasador, do alto dos 40ºC à sombra, vi-a surgir no fundo da praça com um livro na mão e um ramo de margaridas. A princípio, poderia jurar que estava a  delirar, a ter visões - seria do sol dilacerante de Agosto!? -, mas não. Era a mais pura das realidades a acontecer à minha frente, temperada pelo suor - meu e dos velhos que me ladeavam -; enquanto as moscas, teimosas, insistiam em fazer do meu rosto o seu amparo e bebedouro.
Não conseguia falar, exprimir uma palavra que fosse, à medida que a passos decisivos ela se aproximava deste grupo curvado pelo tempo, pelas chagas da memória... 
Passou. E com ela levou a oportunidade de lhe falar, de lhe dizer "olá de novo". Deixou um aroma a rebuçado de morango no ar e desapareceu na esquina. Perdi-lhe os saltos, os passos e os cabelos que ainda hoje acredito me terem acariciado a fronte, com o amor pueril que se tem por quem já adormece com 50 pregas na face e acorda com outras tantas somadas.
Mesmo sabendo que já não a verei mais, amanhã regresso. Volto a transpirar e a rodear-me dos mesmos velhos de hoje, na praça, na esperança do vento me trazer de novo o cheiro a rebuçado de morango e aqueles cabelos longos a roçar-me as rugas, como um "adeus" viciante. Volto, e desta vez trago-lhe um ramo de margaridas que faço questão de apanhar pela manhã, do outro lado da estrada da Igreja, junto ao terreno do Januário. Depois, quando ela passar estendo-lhe as flores e sorrio. Mas de boca fechada que o tempo levou-me quase tudo. Até a graça de um par de dentes alinhados. E dir-lhe-ei que nos separam muitas gerações e que não tem importância nenhuma. Porque nas próximas duas eu faço questão de hibernar. Daqui a 150 anos estaremos juntos outra vez e nesse dia, no dia em que a vir de novo, sou eu quem atravessa a praça... E vou parar, olhá-la nos olhos, sorrir-lhe. E colheremos margaridas juntos. Mesmo que a Igreja já não exista e no terreno do Januário tenham construído um enorme centro comercial. 

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